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“ Tire seu racismo do caminho que eu cheguei, poderosa, com minha cor” (artigo)

"A Consciência Negra, para minha pessoa, significa saber que a nossa luta é intensa, contínua e, por vezes, dolorosa. Temos o que celebrar? Temos sim". Artigo exclusivo de Luciene Malta*

Publicado: 25 Novembro, 2020 - 07h48 | Última modificação: 25 Novembro, 2020 - 10h45

Escrito por: Assessoria de Comunicação da CUT-PE

Reprodução
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A CUT Pernambuco, no mês dedicado à consciência negra e inserida em discussões e debates, em nível nacional, através de lives dos movimenos sindicais, sociais e populares publica artigo exclusivo de Luciene Malta, pós-graduada em especialização da Cultura Pernambucana, mulher negra, sertaneja, 58 anos, petista, artesã e feminista, 

  * Luciene Malta

Sou uma mulher negra e indígena também. Tive um pai de ascendência Pankararu. Tive avô preto e avó de pele clara devido às invasões espanholas e portuguesas no sertão de Pernambuco. Tenho mãe dessa ascendência que teve avó portuguesa e avô preto. Nossa família é cheia de colorismo e traços indígenas e negros. Gosto do que sou. Gosto de olhar minha sobrinha caçula empoderada na sua beleza negra e feminista. Minha cidade natal - Serra Talhada - é muito racista. Teve pessoas negras escravizadas e vilipendiadas. O dia de hoje, todos os dias, vejo nas ruas de Recife, onde moro há trinta anos, as condições de miserabilidade e invisibilidade das pessoas negras como eu. Cada dia perdendo direitos e sofrendo os abusos e omissões do Estado.
 
A Consciência Negra, para minha pessoa, significa saber que a nossa luta é intensa, contínua e, por vezes, dolorosa. Temos o que celebrar? Temos sim. Entretanto os duros tempos atuais retrocederam em genocídio, especialmente da juventude negra e em precarização do trabalho, além do machismo contra as mulheres negras que se dá de forma mais violenta.
 
Historicamente, as violências contra as mulheres negras sãos diversas, por vezes ocultas e muitas vezes impunes. Variam desde o preconceito contra o cabelo da criança na escola, até os múltiplos tipos de violência: preconceitos, ameaças, intimidações, agressões verbais e físicas, psicológicas, culminando com o feminicídio. Por ser mulher negra, incluo genocídio de um povo. As políticas de reparação histórica ao povo negro, alcançam as mulheres no que há de mais caro: o pertencimento, lugar de fala, noção de cidadã em seus territórios e no âmbito da sociedade. 
 
Entretanto, para além de lutas e conquistas de direitos, a mulher negra ainda é a ponta nas políticas públicas. As mulheres negras são diversas em arquétipos e personificações. Os territórios de representação política, delimitam seu acesso e sua representatividade. O que configura a violência intrínseca, invisibilizando suas personas, suas lutas e sua existência. É um contraponto quando se sabe que o Brasil tem o maior número de mulheres negras, depois de alguns países africanos.
 
Quais as faces atuais da violência contra as mulheres? Como reagem as mulheres negras às violências? As políticas públicas para as mulheres as alcançam? Para além das políticas de reparação histórica, há que se destacar uma parte extremamente maltratada da sociedade que necessita de ações específicas do Estado: as mulheres negras, jovens, adultas e idosas. O racismo estrutural, a *necropolítica* são os indícios cruéis do apagamento étnico de seres humanos. Frente a isso é imperativo a criação e o fortalecimento de organismos de salvaguarda para as mulheres negras, reiterando doloridade, interseccionalidades e diversidade nas execuções e participações dessas mulheres nas afirmações de identidades, territórios e subjetividades, onde elas serão as condutoras das suas vidas, protegidas pelo Estado.
 
Em verdade, faltam políticas públicas para educação, saúde, bens culturais e, principalmente, respeito e dignidade. Esse estado de coisas nos impulsiona e nos convoca à luta todos os dias. Sem esquecer a consciência de classe. Portanto, tire seu racismo do caminho que eu cheguei, poderosa, com minha cor. Não arredarei o pé.
 
*Necropolítica - Criado em 2003 pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, o conceito descreve como, nas sociedades capitalistas, o Estado define quem deve viver e quem deve morrer. No texto, de pouco mais de 30 páginas, se dedicou a uma tarefa árida: examinar como os governos administram a morte. A isso, deu o nome de necropolítica.
 
*Pós-graduada em especialização da cultura oernambucana, mulher negra, sertaneja, 58 anos, petista, artesã e feminista*